A estrutura da narrativa tradicional realista organiza-se segundo as categorias do senso comum e da realidade, apoiando-se numa espécie de pacto de objetividade, de veracidade, estabelecido entre o autor e o leitor. Por isso mesmo esse tipo de narrativa procura respeitar a ordem objetiva do tempo cronológico e dos planos espaciais, assim como as fronteiras entre o real e o imaginário, a vida e a morte, recorrendo sempre ao princípio da causalidade como procedimento mimético, com o que pretende assegurar a maior identidade possível entre a lógica do enredo e aquela do mundo real.A narrativa fantástica coloca em xeque exatamente esse modo retórico de organização do relato, na medida em que instaura no próprio texto a desordem e a fratura. O novo discurso efetua uma desconstrução crítica da nossa representatividade empírica do real, fazendo com que o mundo cotidiano, aquele em que vivemos. Perca todo o contorno, torne-se o lugar do improvável, do fantástico. E numa atitude ainda mais radical, o texto decreta o questionamento dos postulados básicos da apreensão científica do mundo, os princípios da causalidade, da não-contradição, da identidade, denunciando a ilusão de um projeto que pretenda captar toda a complexidade do real apoiado apenas nos parâmetros objetivistas da ciência.
Para tornar efetivo o seu propósito de desconstruir criticamente a realidade, o escritor de narrativas fantásticas pode lançar mão de objetos insólitos, seres pitorescos e extravagantes, praticantes de ofícios estranhos ou anacrônicos, seres dotados de uma inconfundível vocação imaginária, cuja presença no texto é sintoma de uma propensão para o milagroso, o mágico, o fantástico e o mítico-lendário.
Outro caminho para a configuração do fantástico é a manipulação de elementos que compõem a ordem objetiva, elementos capazes de despertar a credulidade do leitor, mas que são alterados nas suas qualidades essenciais, convertendo-se em seres imaginários. Para conseguir criar uma atmosfera insólita, Murilo Rubião lança mão de recursos como:
1. O EXAGERO
2. A REITERAÇÃO
3. A OMISSÃO DE DADOS
4. O PARADOXO
5. A ATRIBUIÇÃO DE PROPRIEDADES INADEQUADAS A
- SERES OU OBJETOS;
5.1 Efeitos sem caus
5.2. Causas que não produzem efeitos
5.3.. Incongruência entre causa e efeito
5.4.Efeitos não proporcionais à causa
7. A DILUIÇÃO DAS CATEGORIAS ESPACIOTEMPORAIS;
8. A METAMORFOSE
9. A FIGURA DO DUPLO
1. O EXAGERO ou HIPÉRBOLE, ou seja, o aumento (ou diminuição) gradativo das propriedades de um elemento narrativo (situação, personagem, coisa). É o exemplo do conto Aglaia, no qual o casal após evitar contatos sexuais e se esterilizar, continua gerando filhos, que “nasciam com seis, três, dois meses e até vinte dias após a fecundação. Jamais vinham sozinhos, mas em ninhadas de quatro e cinco”. Uma coisa é considerada exagerada a partir do momento em que rompe os limites da realidade. A diminuição física, tendendo ao desaparecimento total, é tema central do conto O bloqueio, que narra a progressiva desmontagem de um prédio. O movimento redutivo é bidirecional: de cima para baixo e vice-versa. Ambos os casos definem-se como expressões hiperbólicas geradoras de uma temática fantástica. Os contos Bárbara e O edifício são também exemplos de uso do exagero na configuração do insólito.
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