[Valid Atom 1.0] O Fantástico Literário na Web: Dezembro 2011

26 de dezembro de 2011

Comentário do conto O Ex-Mágico da Taberna Minhota.

O estudo de uma obra a partir da perspectiva do fantástico pressupõe o estudo do conceito de fantástico e suas delimitações. Na literatura, o fantástico se desenvolve a partir de um certo abandono da racionalidade que por muito tempo imperou com o propósito de explicar o mundo e o indivíduo. O imaginário entra na literatura como uma nova possibilidade de abordagem de elementos inquietantes e inexplicáveis da realidade. De maneira geral, a primeira idéia que se estabelece com relação ao conceito de fantástico é que ele se define em relação aos conceitos de real e de imaginário. 
Desde o século XIX, foram muitas as definições formuladas, é possível citar como exemplo alguns trechos de textos recentes extraídos da obra Le Conte Fantastique en France de Castex "O fantástico ... se caracteriza por uma intromissão brutal do mistério no quadro da vida real" ou "a narrativa fantástica gosta de nos apresentar, habitando o mundo real em que nos achamos, homens como nós, colocados subitamente em presença do inexplicável". Rogger Caillois em Au Coeur do fantastique diz "Todo o fantástico é ruptura da ordem estabelecida, irrupção do inadmissível no seio da inalterável legalidade cotidiana". Dentre tantas definições existentes a esse respeito podemos observar a recorrente citação de elementos como o "mistério", o "inexplicável", o "inadmissível" que se introduz na "vida real", ou no "mundo real", ou ainda na "inalterável legalidade cotidiana". Sendo assim, é possível formular a idéia de que o fantástico se estabelece quando, em uma narrativa, se dá um acontecimento inusitado que aparentemente não pode ser explicado pelas leis naturais mas, no entanto, não deixa descartada totalmente essa possibilidade.

[Leia mais]

8 de dezembro de 2011

Herberto Helder, Teorema.


El-rei D. Pedro, o cruel, está na janela sobre a praceta onde sobressai a estátua municipal do Marquês Sá da Bandeira. Gosto deste rei louco, inocente e brutal. Puseram-me de joelhos, as mãos amarradas atrás das costas, mas levanto um pouco a cabeça, torço o pescoço para o lado esquerdo, e vejo o rosto violento e melancólico de meu Senhor. Por debaixo da janela onde se encontra, existe uma outra em estilo manuelino, uma relíquia, obra delicada de pedra que resiste no meio do tempo. D. Pedro deita a vista distraída pela praça fechada pelos seus soldados. Vê a igreja monstruosa do Seminário, retórica de vidraças e nichos, as pombas que pousam na cabeça e nos braços do marquês e vê-me em baixo, ajoelhado, entre alguns dos seus homens. O rei olha para mim com simpatia.

Fui condenado por ser um dos assassinos da sua amante favorita, D. Inês. Alguém quis defender-me, dizendo que eu era um patriota. Que desejava salvar o Reino da influência espanhola. Tolice. Não me interessa o Reino. Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o.
Olho de novo para a janela onde se debruça. Ele diz um gracejo. Toda a gente ri. Preparem-me esse coelho, que tenho fome.O rei brinca com o meu nome. O meu apelido é Coelho.O que este homem trabalhou na nossa obra! Levou o cadáver da amante de uma ponta a outra do país, às costas de gente do povo, entre tochas e cantos fúnebres. Foi um terrível espetáculo que cidades e lugares apreciaram. Alguém ordena que me levante e agradeça ao meu Senhor.
Levanto-me e fico bem defronte do edifício. Vejo a janela manuelina e o rei esmagado entre os blocos dos dois prédios ao lado.-Senhor,- agradeço-te a minha morte. E ofereço-te a morte de D. Inês. Isto era preciso, para que o teu amor se salvasse.-Muito bem – responde o rei. Arranquem-lhe o coração pelas costas e tragam-me. 
[LEIA MAIS, clicando na frase abaixo]

Comentário do conto Teorema de Herberto Helder


 HerbertoHelder Luís Bernardes de Oliveira nasceu a 23 de Novembro de 1930 no Funchal, ilha da Madeira, no seio de uma família de origem judaica. Poeta, ensaísta e contista, Herberto Helder é autor de vários livros de poesia e de um único livro de contos – Os passos em volta - do qual colhemos “Teorema”. Ele é considerado um dos melhores poetas surgidos no século XX, em Portugal. Além disto, seu livro de contos já teve várias edições esgotadas e reeditadas.
O título da narrativa aponta a ambigüidade que percorre o texto, ensejando leituras diferentes a partir dos dois sentidos advindos dos significados de teorema. Na sua acepção mais evidente, como a veicularam as ciências matemáticas, teorema é uma proposição demonstrável a partir de axiomas, ou seja, uma proposição que, para ser admitida, precisa de demonstração que comprove a evidência da tese. Mas, existe uma forma de perturbar a lógica desse procedimento, por redução do teorema ao “absurdo”, inversão de caminho que, no entanto, chegará à mesma verdade. É este significado o que se coloca para a demonstração da tese que o autor levanta (via absurdo), ou seja: demonstrar, através da inversão da “verdade histórica” – ou daquilo que se tem como tal –, que o crime praticado por razões de Estado (ou políticas) tem uma outra verdade desvelável pelas vias do absurdo.
Tal inversão da verdade começa logo no primeiro parágrafo com as frases proferidas por Pero Coelho referindo-se à Inês de Castro: “Matei-a para salvar o amor do rei. D. Pedro sabe-o”. Ditas pelo assassino de Inês de Castro, tais palavras promovem a inversão da verdade histórica, desmentindo tudo o que foi asseverado pela história oficial e, por extensão, desconstruindo a imagem de Inês e a imagem de Pedro oferecidas por Camões e demais poetas que mitificaram Inês e sua trágica história de amor. 
 
[LEIA MAIS, clicando na frase abaixo]

3 de dezembro de 2011

Murilo Rubião: Bárbara.


 "O homem que se extraviar do caminho da doutrina, terá por morada a assem
bléia dos gigante." - Provérbios, XXI; 16.

"Bárbara gostava somente de pedir. Pedia e engordava. Por mais absurdo que pareça, encontrava-me sempre disposto a lhe satisfazer os caprichos. Em troca de tão constante dedicação, dela recebi frouxa ternura e pedidos que se renovavam continuamente. Não os retive todos na memória, preocupado em acompanhar o crescimento do seu corpo, se avolumando à medida que se ampliava sua ambição. Se ao menos ela desviasse para mim parte do carinho dispensado às coisas que eu lhe dava, ou não engordasse tanto, pouco me teriam importado os sacrifícios que fiz para lhe contentar a mórbida mania.
Quase da mesma idade, fomos companheiros inseparáveis na meninice, namorados, noivos e, um dia, nos casamos. Ou melhor, agora posso confessar que não passamos de simples companheiros. Enquanto me perdurou a natural inconsequência da infância, não sofri com as suas esquisitices. Bábara era menina franzina e não fazia mal que adquirisse formas mais amplas. Assim pensando, muito tombo levei, subindo a árvores, onde os olhos ávidos da minha companheira descobriam frutas sem sabor ou ninhos de passarinho. Apanhei também algumas surras de meninos aos quais era obrigado agredir unicamente para realizar um desejo de Bárbara. E se retornava com o rosto ferido, maior se lhe tornava o contentamento. Segurava-me a cabeça entre as mãos e sentia-se feliz em acariciar-me a face intumescida, como se as equimoses fossem um presente que eu lhe tivesse dado.

[Continue a leitura, clicando na frase abaixo]

Comentário do conto Bárbara, de Murilo Rubião.

O conto “Bárbara” tematiza a ambição humana, o desejo de ter tudo. Nele, a sucessão de desejos absurdos e incontroláveis, ao ponto de configurar um processo reiterativo e acumulativo, acentua a natureza incomum da personagem. De acordo com a estratégia adotada por Murilo Rubião, o caráter insólito de Bárbara não resulta apenas da sucessão dos absurdos pedidos que faz, mas, igualmente, dos efeitos fantásticos que eles geram, das, das constantes expectativas que provocam no antagonista e da relação de contraste entre o plano da excepcionalidade, que é o de Bárbara, e o plano da normalidade à sua volta, em que se inscreve o marido.
O caráter de excepcionalidade pode ser verificado, logo no meio do conto. Bárbara é dominada por exigências, caprichos e esquisitices que lhe provocam estranhas manias e que a levam a fazer extravagantes pedidos. Sua obesidade decorre de uma mórbida obsessão de pedir as coisas.
O marido, antagonista de Bárbara, como já foi dito, inscreve-se no plano da normalidade, o que se revela na sua atitude de constante expectativa com relação ao que pode advir da misteriosa esposa. Ele funciona como contraponto de Bárbara, cuja presença insólita configura o plano da anormalidade.

O efeito normalmente esperado para a falta de alimentos é a perda de peso e o enfraquecimento do corpo. Se este resultado é alterado e a falta de alimento passa a provocar aumento de peso, estamos diante de um efeito fantástico. Derivado da transgressão ao princípio da causalidade advinda da incongruência entre causa e efei

Outra transgressão ao princípio da causalidade ocorre quando ocorre a associação indevida de fatos: É normal que alguém manifeste seu desejo sob a forma de pedidos, como é normal que engorde. Não é normal que um fato desencadeie o outro.Bárbara pedia e engordava.
Há uma espécie de condenação no relacionamento das personagens. A incapacidade de afeto surge no tema da castração, fundamental mos contos de Murilo Rubião. Bárbara exemplifica bem essa castração. A relação marido/mulher não é de afeto, mas de medo por parte dele, de tirania por parte dela. O marido é mero objeto para satisfazer os caprichos de Bárbara.
A estrutura do casamento, enquanto união amorosa é desconstruída. O erotismo inexiste.

2 de dezembro de 2011

Murilo Rubião: Os dragões.

Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes. Receberam precários ensinamentos e a sua formação moral ficou irremediavelmente comprometida pelas absurdas discussões surgidas com a chegada deles no lugar. Poucos souberam compreende-los e a ignorância geral fez com que, antes de iniciada a sua educação, nos perdêssemos em contraditórias suposições sobre o país e raça a que poderiam pertencer.
A controvérsia inicial foi desencadeada pelo vigário. Convencido de que eles, apesar da aparência dócil e meiga, não passavam de enviados do demônio, não me permitiu educá-los. Ordenou que fossem encerrados numa casa velha, previamente exorcisada, onde ninguém poderia penetrar. Ao se arrepender de seu erro, a polêmica já se alastrara e o velho gramático negava-lhe a qualidade dos dragões, “coisa asiática, de importação européia”. Um leitor de jornais, com vagas idéias científicas e um curso ginasial feito pelo meio, falava em monstros antediluvianos. O povo benzia-se, mencionando mulas-sem-cabeça lobisomens.
Apenas as crianças, que brincavam furtivamente com os hóspedes, sabiam que os novos companheiros eram simples dragões. Entretanto, elas não foram ouvidas. O cansaço e o tempo venceram a teimosia de muitos. Mesmo mantendo suas convicções, evitavam abordar o assunto. Dentro em breve, porém, retomariam o tema. Serviu de pretexto uma sugestão do aproveitamento dos dragões na tração de veículos. A idéia pareceu boa a todos, mas se desavieram asperamente quando se tratou da partilha dos animais. O número destes era inferior aos dos pretendentes.
 Desejando encerrar a discussão, que se avolumava sem alcançar objetivos práticos, o padre firmou uma tese: Os dragões receberiam nomes na pia batismal e seriam alfabetizados. Até aquele instante eu agira com habilidade, evitando contribuir para exacerbar os ânimos. E se, nesse momento, faltou-me a calma, o respeito devido ao bom pároco, devo culpar a insensatez reinante. Irritadíssimo, expandi o meu desagrado.
- São dragões! Não precisam de nomes nem do batismo!
Perplexos com a minha atitude, nunca discrepante das decisões aceitas pela coletividade, o reverendo deu largas à humildade e abriu a mão do batismo. Retribui o gesto, resignando-me à exigência de nomes.

[LEIA MAIS, clicando na frase abaixo]

Comentário do conto Os dragões.

O escritor do fantástico pode fazer uso de vários recursos para a realizar a desconstrução crítica da realidade: seres exóticos, pitorescos ou extravagantes, objetos e situações insólitas, pessoas estranhas que praticam ofícios inusitados, dentre outros. No conto - Os dragões - a convivência pacífica do natural com o sobrenatural assume um caráter de normalidade, não causando espanto no leitor a relação normal que se estabelece entre os dragões e as pessoas da cidade. Assim uma situação insólita se extingue desde o início da narrativa, quando o narrador acusa os habitantes da cidade de não terem habilidade para uma convivência perfeita com os animais, por causa da deficiência cultural dos moradores, que não lhes propiciava os meios para educarem os dragões.
Considerando que o fantástico não é inocente de significados, constituindo-se como uma estratégia critica, a presença dos dragões na sociedade humana ocorre para que esta seja criticada através dos seus elementos. Os dragões cumprem sua função de ativar na pequena comunidade os preconceitos, as intolerâncias e as atitudes irracionais dos seus moradores.
O conto questiona a idéia de que os homens sejam do ponto de vista ontológico, superiores aos animais. A sua intencionalidade crítica visa atingir, também, a questão ética, na medida em que procura demonstrar que a convivência com os homens corrompe os animais, levando-os a assimilar seus vícios e a adotar os seus comportamentos e atitudes equivocados. Assim sendo, a narrativa muriliana desconstrói a idéia arraigada de que uma conduta eticamente positiva seja privilégio dos humanos.
______________________________________
Zenóbia Collares Moreira