[Valid Atom 1.0] O Fantástico Literário na Web

15 de abril de 2016

J.J. Veiga - A Máquina extraviada


Você sempre pergunta pelas novidades daqui deste sertão, e finalmente posso lhe contar uma importante. Fique o compadre sabendo que agora temos aqui uma máquina imponente, que está entusiasmando todo o mundo. Desde que ela chegou - não me lembro quando, não sou muito bom em lembrar datas - quase não temos falado em outra coisa; e da maneira que o povo aqui se apaixona até pelos assuntos mais infantis, é de admirar que ninguém tenha brigado ainda por causa dela, a não ser os políticos. 

A máquina chegou uma tarde, quando as famílias estavam jantando ou acabando de jantar, e foi descarregada na frente da Prefeitura. Com os gritos dos choferes e seus ajudantes (a máquina veio em dois ou três caminhões) muita gente cancelou a sobremesa ou o café e foi ver que algazarra era aquela. Como geralmente acontece nessas ocasiões, os homens estavam mal-humorados e não quiseram dar explicações, esbarravam propositalmente nos curiosos, pisavam-lhes os pés e não pediam desculpa, jogavam pontas de cordas sujas de graxa por cima deles, quem não quisesse se sujar ou se machucar que saísse do caminho. 
Descarregadas as várias partes da máquina, foram elas cobertas com encerados e os homens entraram num botequim do largo para comer e beber. Muita gente se amontoou na porta, mas ninguém teve coragem de se aproximar dos estranhos porque um deles, percebendo essa intenção nos curiosos, de vez em quando enchia a boca de cerveja e esguichava na direção da porta. Atribuímos essa esquiva ao cansaço e à fome deles e deixamos as tentativas de aproximação para o dia seguinte; mas quando os procuramos de manhã cedo na pensão, soubemos que eles tinham montado mais ou menos a máquina durante a noite e viajado de madrugada. 
A máquina ficou ao relento, sem que ninguém soubesse quem a encomendou nem para que servia. E claro que cada qual dava o seu palpite, e cada palpite era tão bom quanto outro. 
As crianças, que não são de respeitar mistério, como você sabe, trataram de aproveitar a novidade. Sem pedir licença a ninguém (e a quem iam pedir?), retiraram a lona e foram subindo em bando pela máquina acima - até hoje ainda sobem, brincam de esconder entre os cilindros e colunas, embaraçam-se nos dentes das engrenagens e fazem um berreiro dos diabos até que apareça alguém para soltá-las; não adiantam ralhos, castigos, pancadas; as crianças simplesmente se apaixonaram pela tal máquina.

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Comentário do conto A Máquina extraviada


Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre (RS), no Bom Fim, em 23 de março de 1937. Os seus contos assinalam seu talento e o vigor da sua ficção, na qual os jogos do poder e da paixão são mostrados sob perspectivas surpreendentes, em tom de humor e fantasia. Sua ficção é, quase sempre, pessimista e irônica quanto às desgraças humanas, com a crueldade da humanidade, que não receia desmascarar, quando escondidas sobre as supostas boas-intenções que costumam apresentar para serem mesquinhos e egoístas.

Logo à primeira leitura do conto, dois elementos chamaram-me a atenção: os nomes dados às duas personagens e a sua relação com a caracterização de ambas, apontando para as diferenças contrastantes ente elas, como um dos caminhos possíveis para a compreensão do texto e da crítica social que nele está embutida.
O nome “Bárbara” significa pessoa sem civilização, selvagem, inculta, desumana, rude. Por sua vez, “Angelina” provém da palavra anjo, significando pessoa bondosa, virtuosa, caritativa. Comparando os dois nomes, percebe-se uma polaridade entre eles, ensejada pela conotação negativa de um e positiva do outro. Este contraste entre as personagens tem continuidade na descrição dos traços individuais de cada uma delas.
Ao devorar os próprios membros e abrir o ventre, sangrando apesar dos torniquetes, Angelina não morre no tempo esperado. Pelas leis naturais que regem o nosso mundo, não há explicação para tal fato. Mesmo assim, o conto não se enquadraria no Fantástico, mas sim de uma alegoria. Neste caso, podemos admitir que o narrador, lança mão da história de Bárbara e Angelina como uma estratégia crítica para apontar as mazelas que tipificam as relações entre duas classes sociais coexistentes em nossa sociedade: a classe alta, representada pela rica Bárbara e a classe média desprivilegiada, representada por Angelina.
Esse conto nos revela duas faces do ser humano: uma está relacionada ao ato de antropofagia coletiva, em que uma classe social privilegiada esmaga e destrói a classe social desprivilegiada, considerada inferior, sem se preocupar com sentimentos e interesses que não sejam os seus ou com necessidades, que não sejam as suas. A outra face liga-se à autodestruição passiva do indivíduo ou da classe que crê nas palavras enganosas e na hipocrisia dos “antropófagos bolivianos” que circulam pela sociedade, nas mentiras proferidas por quem está no poder para manter sua situação de superioridade e de privilégios.
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Imagem na postagem: Foto de Moacyr Scliar.

30 de dezembro de 2014

Murilo Rubião: O Pirotécnico Zacarias.

"E se levantará pela tarde sobre ti uma luz como a do meio-dia; e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela-d'alva.”..(Jó, XI, 17)

Raras são as vezes que, nas conversas de amigos meus, ou de pessoas das minhas relações, não surja esta pergunta. Teria morrido o pirotécnico Zacarias?...A esse respeito as opiniões são divergentes. Uns acham que estou vivo - o morto tinha apenas alguma semelhança comigo. Outros, mais supersticiosos, acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a quem andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada, envolvida por um pobre invólucro humano. Ainda há os que afirmam de maneira categórica o meu falecimento e não aceitam o cidadão existente como sendo Zacarias, o artista pirotécnico, mas alguém muito parecido com o finado.
Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado. A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra.
Em verdade morri, o que vem de encontro à versão dos que crêem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente. A princípio foi azul, depois verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor.
Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou.
- Simplício Santana de Alvarenga!....
- Presente!....
Senti rodar-me a cabeça, o corpo balançar, como se me faltasse o apoio do solo. Em seguida fui arrastado por uma força poderosa, irresistível. Tentei agarrar-me às árvores, cujas ramagens retorcidas, puxadas para cima, escapavam aos meus dedos. Alcancei mais adiante, com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar com grande velocidade por entre elas, sem queimá-las, todavia.
- "Meus senhores: na luta vence o mais forte e o momento é de decisões supremas. Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem os seus chapéus!”.
(Ao meu lado dançavam fogos de artifício, logo devorados pelo arco-íris.)....
- Simplício Santana de Alvarenga!.
- Não está?.
- Tire a mão da boca, Zacarias!.
- Quantos são os continentes?
- E a Oceania?.
Dos mares da China não mais virão as quinquilharias.
A professora magra, esquelética, os olhos vidrados, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes. As varetas eram compridas, tão longas que obrigavam D. Josefina a ter os pés distanciados uns dois metros do assoalho e a cabeça, coberta por fios de barbante, quase encostada no teto.....
- Simplício Santana de Alvarenga!....
- Meninos, amai a verdade!....
A noite estava escura. Melhor, negra. Os filamentos brancos não tardariam a cobrir o céu. Caminhava pela estrada. Estrada do Acaba Mundo: algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio. O automóvel não buzinou de longe. E nem quando já se encontrava perto de mim, enxerguei os seus faróis. Simplesmente porque não seria naquela noite que o branco desceria até a terra.
As moças que vinham no carro deram gritos histéricos e não se demoraram a desmaiar. Os rapazes falaram baixo, curaram-se instantaneamente da bebedeira e se puseram a discutir qual o melhor destino a ser dado ao cadáver.

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29 de dezembro de 2014

Comentário do conto O Pirotécnico Zacarias.

O Pirotécnico Zacarias é um dos melhores contos de Murilo Rubião. Nele, temos um narrador autodiegético (um narrador que protagoniza a história que narra) e que, considerando se trata de um “morto vivo”, instaura o efeito fantástico na narrativa, na medida em que, paradoxalmente, narra a própria morte, movimentando-se em um plano no qual estão eliminados os limites entre VIDA e MORTE. Tal condição abre espaço para Zacarias transitar livremente de um estado para outro, além de permitir que ele viva simultaneamente esses dois estados antagônicos e inconciliáveis.
Esta insólita situação rompe radicalmente com o princípios da lógica, resvalando para uma inconcebível contradição, na proporção em que contraria o princípio estabelecido segundo o qual duas proposições que mutuamente se contradizem não podem ser consideradas verdadeiras e, portanto, jamais será possível afirmar e negar concomitantemente a mesma coisa, sob pena de provocar uma negação do real. A transgressão de tal princípio significaria o advento de uma nova lógica que irromperia sob a égide do princípio da contradição, via absurdo.
Esta lógica contraditória e insólita é a que rege a instauração do fantástico muriliano neste conto, na qual qualquer tipo de diferença é banida, permitindo que estados tão diferenciados, antinômicos e inconciliáveis sejam nivelados, confundindo-se no indizível do fantástico.
No próprio conto são levantadas algumas respostas lógicas pelas personagens que tentam encontrar uma explicação para o inusitado fato que testemunham. Daí o surgimento de indagações: “Teria morrido o pirotécnico Zacarias?” As possíveis explicações lógicas e verossímeis são dadas na narrativa, à guisa de excluir ou dirimir o paradoxo instaurador do fantástico. Duas hipóteses de explicação, que reduziria o efeito fantástico a um mero fato natural, sem mistério, são discutidas:

1) O pirotécnico estaria vivo e o morto não passava de alguém parecido com ele.
2) O pirotécnico estaria morto e o vivo era alguém parecido com ele.

Ora bem, a escolha, pelo leitor, de qualquer uma das sugestões dissolveria o paradoxo e, consequentemente, excluiria o elemento fantástico. Todavia, se, por um lado, ambas as escolhas são lógicas e coerentes, ambas neutralizariam o efeito fantástico, por outro lado elas são igualmente possíveis. Sendo assim, a ambigüidade típica do fantástico permaneceria: O pirotécnico poderá estar vivo ou poderá estar morto.
O conto questiona a condição existencial do homem, a sua condição dramática, a sua tragédia individual: Zacarias só tem a sua existência reconhecida depois que morre. Quando era vivo, todos o ignoravam, nunca o perceberam como um ser humano. Ele passa a ter existência no âmbito do trágico.
O texto convida a uma reflexão sobre a realidade humana. Afinal, o que é o homem antes e depois de sua morte? Em qual das duas condições ele existe mais? Esta resposta cabe aos leitores responderem.
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Imagem na postagem: Foto de Murilo Rubião.



31 de julho de 2014

Um Esqueleto, de Machado de Assis


Eram dez ou doze rapazes. Falavam de artes, letras e política. Alguma anedota vinha de quando em quando temperar a seriedade da conversa. Deus me perdoe! parece que até se fizeram alguns trocadilhos.
O mar batia perto na praia solitária... estilo de meditação em prosa. Mas nenhum dos doze convivas fazia caso do mar. Da noite também não, que era feia e ameaçava chuva.
É provável que se a chuva caísse ninguém desse por ela, tão entretidos estavam todos em discutir os diferentes sistemas políticos, os méritos de um artista ou de um escritor, ou simplesmente em rir de uma pilhéria intercalada a tempo.
Aconteceu no meio da noite que um dos convivas falou na beleza da língua alemã. Outro conviva concordou com o primeiro a respeito das vantagens dela, dizendo que a aprendera com o Dr. Belém.
— Não conheceram o Dr. Belém? perguntou ele.
— Não, responderam todos.
— Era um homem extremamente singular. No tempo em que me ensinou alemão usava duma grande casaca que lhe chegava quase aos tornozelos e trazia na cabeça um chapéu-do-chile de abas extremamente largas.
— Devia ser pitoresco, observou um dos rapazes. Tinha instrução?
— Variadíssima. Compusera um romance, e um livro de teologia e descobrira um planeta...
— Mas esse homem?
— Esse homem vivia em Minas. Veio à corte para imprimir os dois livros, mas não achou editor e preferiu rasgar os manuscritos. Quanto ao planeta comunicou a notícia à Academia das Ciências de Paris; lançou a carta no correio e esperou a resposta; a resposta não veio porque a carta foi parar a Goiás.
Um dos convivas sorriu maliciosamente para os outros, com ar de quem dizia que era muita desgraça junta. A atitude porém do narrador tirou-lhe o gosto do riso. Alberto (era o nome do narrador) tinha os olhos no chão, olhos melancólicos de quem se rememora com saudade de uma felicidade extinta. Efetivamente suspirou depois de algum tempo de muda e vaga contemplação, e continuou:
— Desculpem-me este silêncio, não me posso lembrar daquele homem sem que uma lágrima teime em rebentar-me dos olhos. Era um excêntrico, talvez não fosse, não era decerto um homem completamente bom; mas era meu amigo; não direi o único mas o maior que jamais tive na minha vida. Como era natural, estas palavras de Alberto alteraram a disposição de espírito do auditório. O narrador ainda esteve silencioso alguns minutos. De repente sacudiu a cabeça como se expelisse lembranças importunas do passado, e disse: 
— Para lhes mostrar a excentricidade do Dr. Belém basta contar-lhes a história do esqueleto.
A palavra esqueleto aguçou a curiosidade dos convivas; um romancista aplicou o ouvido para não perder nada da narração; todos esperaram ansiosamente o esqueleto do Dr. Belém. Batia justamente meia-noite; a noite, como disse, era escura; o mar batia funebremente na praia. Estava-se em pleno Hoffmann. Alberto começou a narração. 
O Dr. Belém era um homem alto e magro; tinha os cabelos grisalhos e caídos sobre os ombros; em repouso era reto como uma espingarda; quando andava curvava-se um pouco. Conquanto o seu olhar fosse muitas vezes meigo e bom, tinha lampejos sinistros, e às vezes, quando ele meditava, ficava com olhos como de defunto. Representava ter sessenta anos, mas não tinha efetivamente mais de cinqüenta. O estudo o abatera muito, e os desgostos também, segundo ele dizia, nas poucas vezes em que me falara do passado, e era eu a única pessoa com quem ele se comunicava a esse respeito. Podiam contar-se-lhe três ou quatro rugas pronunciadas na cara, cuja pele era fria como o mármore e branca como a de um morto.
Um dia, justamente no fim da minha lição, perguntei-lhe se nunca fora casado. O doutor sorriu sem olhar para mim. Não insisti na pergunta; arrependi-me até de lha ter feito.
— Fui casado, disse ele, depois de algum tempo, e daqui a três meses posso dizer outra vez: sou casado.
— Vai casar?
— Vou.
— Com quem?
— Com a D. Marcelina.
D. Marcelina era uma viúva de Ouro Preto, senhora de vinte e seis anos, não formosa, mas assaz simpática, possuía alguma cousa, mas não tanto como o doutor, cujos bens orçavam por uns sessenta contos. Não me constava até então que ele fosse casar; ninguém falara nem suspeitara tal cousa.
— Vou casar, continuou o Doutor, unicamente porque o senhor me falou nisso. Até cinco minutos antes nenhuma intenção tinha de semelhante ato. Mas a sua pergunta faz-me lembrar que eu efetivamente preciso de uma companheira; lancei os olhos da memória a todas as noivas possíveis, e nenhuma me parece mais possível do que essa. Daqui a três meses assistirá ao nosso casamento. Promete?
— Prometo, respondi eu com um riso incrédulo.
— Não será uma formosura.
— Mas é muito simpática, decerto, acudi eu.
— Simpática, educada e viúva. Minha idéia é que todos os homens deviam casar com senhoras viúvas.
— Quem casaria então com as donzelas?
— Os que não fossem homens, respondeu o velho, como o senhor e a maioria do gênero humano; mas os homens, as criaturas da minha têmpera, mas... O doutor estacou, como se receasse entrar em maiores confidências, e tornou a falar da viúva Marcelina cujas boas qualidades louvou com entusiasmo.
— Não é tão bonita como a minha primeira esposa, disse ele. Ah! essa... Nunca a viu?
— Nunca.
— É impossível.
— É a verdade. Já o conheci viúvo, creio eu.
— Bem; mas eu nunca lha mostrei. Ande vê-la.

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Comentário do conto "O Esqueleto".


O conto “Um esqueleto” tem seu tema baseado em um fato real macabro, e “...o tal esqueleto seria o de uma cantora lírica francesa, a bela Eugênia Mege, que ao chegar ao Brasil se apaixonara por um médico de grande clínica da antiga capital do Império, o Dr. Antônio José Peixoto. Assassinada pelo marido ciumento, seu corpo fora depois roubado da sepultura pelo amante, que lhe armara o esqueleto e o colocara, numa vitrina, em seu consultório, como um caçador ardente que colecionasse os seus troféus” .

O louco que protagoniza a narrativa é um insano. Assim, a trama desenrola-se entre peripécias medonhas que devem ter feito correr um calafrio pelas alvas e castas espinhas das leitoras oitocentistas do Jornal das Famílias. O epílogo é, entretanto, abrandado pelo mesmo artifício de outras narrativas: o nefasto personagem Dr. Belém, um doente mental, seria realmente um louco. Se tivesse existido... “Mas o Dr. Belém não existiu nunca - pondera Machado - eu quis apenas fazer apetite para o chá...”. E o autor reduz a narrativa, aterradora até então, aos “cestos de costuras”. 

“Um esqueleto” apresenta a realidade, prosaica, em contraponto ao fantasmagórico, arrepiante. Há nestas narrativas alguma influência dos autores fantásticos de seu tempo, como E. T. A. Hoffmann e Edgar Allan Poe, ainda que Machado desfaça os efeitos suscitados pelo insólito com uma brusca retomada da realidade, pondo fim ao efeito fantástico e, consequentemente, projetando a narrativa no âmbito do “estranho”.



Concluindo, nos contos fantásticos machadianos, não há a justificativa/explicação para os “fenômenos” narrados; elas são dissolvidas, quase sempre, pela simples dissolução do efeito fantástico “quase-macabro” ou seja, o horror diluído, desmanchado no final da narrativa, como pode ser visto em “O Esqueleto”.

7 de junho de 2014

A Floresta em sua casa, de Maria Judite de Carvalho


Pintava a lindas cores como um velho artista do passado, que se chamava Douanier Rousseau; simplesmente, os seus bichos não eram ingênuos nem agressivos, mas perigosos. Não terríveis, não assustadores: perigosos, embora um pouco engraçados também. Espreitavam ou estavam alerta ou resfolegavam ao de leve (era como se resfolegassem) ao preparar o salto. Havia sempre folhagem a dissimulá-los, a mantê-los numa quase ilegalidade graciosa, bonitas flores bojudas, de carne rosada, a tornar por assim dizer impossível, a ridicularizar, a sua ferocidade.
Não se via o tigre a atacar o búfalo, mordendo-o já, começando a dilacerá-lo. Não. O tigre, quando tigre havia, estava meio escondido por uma das tais flores, maior do que a sua cabeça. E sentia-se que ele já avistara a presa, que a espiava, que só estava à espera da altura mais conveniente, para agir. Era um jovem leão ágil, esse a que o pintor dava os últimos retoques. Um jovem leão já sabedor, a olhar bem de frente para quem o olhava. Tinha uma grande juba redonda e escura de que só se via metade, e um corpo amarelado que à primeira vista parecia exíguo. Exíguo porque atrás de si havia um tronco de árvore em cuja largura caberiam sete leões e que servia de pano de fundo a uma amálgama de lianas, de longas folhas gordas, carnosas, de arbustos que se erguiam do chão ou que tombavam de cima, em cascata. A juba estava semi-escondida por uma dessas folhas, grande e lobada, quase vermelha, quase animal.
«Era assim a floresta?» perguntavam com um arrepio breve e muita admiração as pessoas que visitavam o atelier do pintor. Ele abria os braços, punha-se a rir. Como havia de saber? Há séculos que os desertos e as grandes florestas e os densos bosques pintalgados de sol tinham desaparecido da face de um pequeno mundo superpovoado, porque a terra era pouca para edificar e para cultivar. Por isso se cultivavam também os oceanos. Nas antigas florestas da Amazónia havia deslumbrantes cidades de vidro, aeroportos imensos, belas auto-estradas. O mesmo nas de África e da Ásia, o mesmo nas do resto do mundo. E os animais, os poucos que tinham sobrevivido ao arrancar das raízes, encontravam-se em três ou quatro pequenos jardins de aclimatação.
Aquelas estranhas florestas eram, no entanto, as que ele imaginava. Velhas, luxuriantes florestas de há séculos, com uma vida que vinha do princípio das coisas. Florestas com túrgidas flores que nasciam, cresciam e morriam em poucas horas, que, por assim dizer, renasciam e onde o perigo espreitava por detrás de cada folha.
Os seus quadros eram muito procurados porque eram decorativos, tinham belas cores e nunca acabavam de ser vistos. Ali, estava o leão, mas, olhando melhor, procurando, avistavam-se as três corças, todas encolhidas, como que receosas, a cobra a rastejar, e mais além, confundindo-se com as lianas, a aranha carangueja. Havia também ângulos dos quais se podiam ver animaizinhos escondidos, aqui e além. Um, dois, cinco, mais?
Era um herdeiro de Rousseau e um charadista. Mas as charadas tinham desaparecido com os almanaques. Um pintor portanto original, criador, muito apreciado. «Tenha a floresta em casa» era o seu slogan publicitário. E as pessoas gostavam de ter em casa um pedaço dessa floresta, era refrescante. A maioria delas nunca tinha visto um leão nem um tigre a não ser nos livros de zoologia, porque os jardins onde havia animais eram poucos e os próprios animais tendiam a desaparecer, como se o mundo actual já não lhes pertencesse. As fêmeas procriavam com dificuldade, algumas espécies estavam praticamente extintas, outras tinham mesmo desaparecido por completo. Assim, já não havia elefantes, nem ursos nem leopardos.

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Comentário do conto A Floresta e sua Casa


O conto “A floresta em sua casa”, integra o livro “Os Idólatras”, de Maria Judite de Carvalho que reúne as narrativas da autora classificadas como pertencentes ao gênero Fantástico, conforme a teoria de Tzvetan Todorov (Introduction à la littérature fantastique, Paris: Seuil, 1973). Esse autor considera três condições necessárias para a definição do fantástico:
1) Que o texto obrigue o leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de pessoas vivas, e a hesitar entre uma explicação natural e outra sobrenatural dos acontecimentos evocados.
2) Que a hesitação possa ser compartilhada com uma personagem, ficando o papel daquele confiado a este e tornando-se a hesitação, uma vez representada, um dos temas da obra.
3) Que o leitor adote certa atitude em relação ao texto, recusando-lhe uma interpretação alegórica ou poética.
A narração heterodiegética (na terceira pessoa) torna mais difícil a manutenção do efeito fantástico, como será visto na análise do conto.
AS PERSONAGENS do conto são o Pintor e duas crianças, Giles e Alex. Giles, 5 anos, é considerado imaginativo pela família. Alex, 10 anos, é quem descobre os sucessivos desaparecimentos dos animais da tela. O Pintor é “um charadista”.
O TEMPO da ação é o Futuro, no qual Rousseau (1844-1910) é um velho artista do passado, no qual não há mais florestas, nem desertos, nem os animais que habitavam o mundo. Estes foram destruídos pela cultura há séculos.
O ESPAÇO caracteriza-se pela ambigüidade e pela duplicidade: o espaço da tela pintada e o espaço da casa onde a família habita.
O pintor inventa paisagens tropicais (como Dourmier Rousseau fazia), que nunca vira, e as vende para as pessoas que não conhecem a natureza real, destruída pela cultura.
O conto se desenvolve em duas partes:

1)Uma situação inicial que trata do pintor e suas pinturas, com minúcias descritivas e alusivas à destruição da natureza (§ 1 – 47).
2) A história propriamente dita (§ 48-128).

Na primeira parte, a personagem principal é o Pintor, interagindo com “as pessoas” e oferecendo-lhes seus quadros-charadas, que elas compram, mas não tentam decifrar. Na segunda parte, afasta-se o Pintor (o criador) e permanece a “criatura” (o quadro). As pessoas são limitadas a uma família: os pais (que compram o quadro, mas não se interessam por ele); os filhos (que querem decifrá-lo com muito interesse em fazê-lo).

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14 de novembro de 2013

Marina, a Intangível, de Murilo Rubião.


“Quem é esta que vai caminhando como a aurora quando se levanta, formosa como a lua, escolhida como o sol, terrível como um exército bem ordenado?” (Cântico dos Cânticos, 6,9)

Antes que tivesse de gritar por socorro, o silêncio me envolveu. Nem mesmo ouvia o bater do coração. Afastei da minha frente a Bíblia e me pus à espera de alguma coisa que estava por acontecer. Certamente seria a vinda de Marina.
Agoniado pela ausência de ruídos na sala, levantei-me da cadeira e quis fugir. Não dei sequer um passo e tornei a assentar-me: eu jamais conseguiria romper o vazio que se estenderam sobre a madrugada. Os sons teriam que vir de fora.
Afinal, duas pancadas longas e pesadas, que a imobilidade do ar fez ganhar em volume e nitidez, ressoaram, aumentando os meus sombrios pressentimentos. Vinham da capela dos capuchinhos, em cuja escadaria eu sempre me ajoelhava, a caminho do jornal.
Como persistisse o meu desamparo, balbuciei uma oração para Marina, a Intangível. A prece ajudou-me a reprimir a angústia, porém não me libertou da incapacidade de cumprir as umas poucas tarefas noturnas.
Sem me impressionar com o fato de a capela não possuir relógio, apertei a cabeça entre os dedos, procurando me concentrar nas minhas obrigações diárias. A cesta, repleta de papéis amarrotados, me desencorajava.
Movia-me, desinquieto, na cadeira, olhando com impotência as brancas folhas de papel, nas quais rabiscara umas poucas linhas desconexas. Além da sensação de plena inutilidade, o meu cérebro seguia vazio e não abrigava nenhuma esperança de que alguém pudesse me ajudar.
Para vencer a esterilidade, arremeti-me sobre o papel, disposto a escrever uma história, mesmo que fosse a mais caótica e absurda. Entretento, o desespero só fez crescer a dificuldade de expressar-me. Quando as frases vinham fáceis e enchia numerosas laudas, logo descobria que me faltara o assunto. Escrevera a esmo.
Inventei várias desculpas para explicar a minha inesperada inibição. Culpei o silêncio da madrugada, a falta de colegas perto de mim. Não me convenci: e nos outros dias? Eu era o único jornalista destacado para o plantão da noite. Sendo o jornal um vespertino, logicamente só ocupava os seus redatores na parte da manhã.
Tentei ainda persuadir-me de que, escrevendo ou não, o resultado seria o mesmo. O redator-chefe nunca aproveitava, na edição do dia, os meus artigos e crônicas, nem deixava determinadas as tarefas que eu deveria cumprir. Para suprir essa desagradável omissão, restava-me inventar, a procurar, ansioso, em velhos papéis, a matéria que iria utilizar nas minhas reportagens. Já abordara, em trabalhos extensos, os menores detalhes do trajeto que, ordinariamente, fazia entre a minha casa e o jornal, sem me esquecer de falar (com ternura) do nosso jardim. Um pequenino jardim , em forma de meia-lua, com algumas roseiras e secas margaridas.! Muito antes de ouvir o surdo rumor das pancadas, a expectativa me enervava. Não mais podia esperar. Que surgisse o que ameaçava vir! A qualquer momento poderia ser arrastado da cadeira e atirado ao ar. A ação da gravidade estava prestes a ser rompida.
De novo abri a Bíblia. Agora menos intranquilo. O silêncio se desfizera e, mesmo sabendo que as horas eram marcadas por um relógio inexistente, tinha a certeza de que o tempo retomara o seu ritmo. (Isso era importante para mim, que não desejava ficar parado no tempo.)

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Comentário do conto Marina, a Intangível, de M. Rubião.


A escrita de Murilo Rubião é polissêmica e polifônica. Mesmo com toda a concisão e praticidade almejada por ele, há uma plurissignificação discursiva em cada enredo, no qual há uma confluência de vozes e de acepções. Vamos recordar aqui o 87. “Princípio do iceberg” que citamos no primeiro capítulo desta pesquisa. Nesse princípio, Hemingway sugere que apenas uma pequena parte do conto se mostra claramente para o leitor. O restante fica “submerso”. É nessa parte submersa que encontramos a polissemia e a polifonia discursiva em Rubião. E para entender essas entrelinhas, tentamos emergir pelo menos parte desse iceberg, em cada um dos contos. 
O conto “Marina, a Intangível”, como os demais, vem introduzido pela epígrafe bíblica. Marina é a palavra-mulher antevista nessa epígrafe, extraída do livro Cântico dos Cânticos. Quem é esta que vai caminhando como a aurora quando se levanta, formosa como a lua, escolhida como o sol, como um exército bem ordenado? (Cânticos dos Cânticos, VI, 10. In: RUBIÃO, 2006, p. 25). 
O questionamento levantado, nesse trecho bíblico, coloca-nos diante de uma encruzilhada interpretativa. Em uma via, encontramos um questionamento acerca da mulher. O pronome “quem” é próprio para pessoa e não para coisas. Além disso, o pronome demonstrativo “esta” e os adjetivos “formosa” e “escolhida” estão todos no feminino. Entretanto, em outra via, torna-se possível o entendimento da personificação da palavra a ser usada no conto que virá, e a exaltação dessa palavra que surge como a aurora, que tem força e ordenação de um exército em batalha. O fato de o trecho ter sido retirado do Cânticos dos Cânticos, livro bíblico carregado de lirismo e metáforas, permite-nos entendê-lo como sendo a glorificação da palavra, pela mediação do recurso da prosopopeia.

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22 de outubro de 2013

Solfieri, conto de Álvaro de Azevedo


Influenciado pelas obras de Lord Byron, Álvares de Azevedo foi o maior representante da Segunda Geração Romântica- Os Ultra-româticos. Sua prosa apresenta o noturno, o aventuresco, o macabro, o satânico, o incestuoso, os elementos do romantismo maldito que segue a linha gótica . Abrangem o amor e a morte sob uma perspectiva exacerbadamente egocêntrica.
Mais do que em outras gerações do romantismo, o ultra-romantismo se destacou através do sentimentalismo excessivo e sombrio. Além disso, vários de seus autores tiveram a existência marcada pelo sofrimento, e um reconhecimento literário póstumo.
Assim também foi a trajetória do mais famoso ultra-romântico brasileiro: Álvares de Azevedo viveu e escreveu sob a tétrica fluência Byroniana, falecendo precocemente no dia 25 de Abril de 1852, antes de completar 21 anos. Enquanto seu corpo era sepultado, o amigo Joaquim Manuel de Macedo recitava "Se Eu Morresse Amanhã"; obra escrita por Álvares de Azevedo poucos dias antes. Mas o poeta teria pressentido sua morte? A obra do poeta apresenta elementos próprios da literatura gótica:

SOLFIERI

Sabeis-lo. Roma e a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio a convulsão do amor, o beijo lascivo a embriaguez da crença! 
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de as luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca.—A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida a lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.

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22 de setembro de 2013

Lygia Fagundes Teles. Seminário dos ratos...


Que século, meu Deus! - exclamaram os Ratos e começaram a roer o edifício.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

O Chefe das Relações Públicas, um jovem de baixa estatura, atarracado, sorriso e olhos extremamente brilhantes, ajeitou o nó da gravata vermelha e bateu de leve na porta do Secretário do Bem-Estar Público e Privado:
- Excelência?
O Secretário do Bem-Estar Público e Privado pousou o copo de leite na mesa e fez girar a poltrona de couro. Suspirou. Era um homem descorado e flácido, de calva úmida e mãos acetinadas. Lançou um olhar comprido para os próprios pés, o direito calçado, o esquerdo metido num grosso chinelo de lã com debrum de pelúcia.- Pode entrar - disse ao Chefe das Relações Públicas que já espiava pela fresta da porta. Entrelaçou as mãos na altura do peito.
- Então? Correu bem o coquetel? Tinha a voz branda, com um leve acento lamurioso. O jovem empertigou-se. Um ligeiro rubor cobriu-lhe o rosto bem escanhoado.
- Tudo perfeito, Excelência. Perfeito. Foi no Salão Azul, que é menor, Vossa Excelência sabe. Poucas pessoas, só a cúpula, ficou uma reunião assim aconchegante, íntima, mas muito agradável. Fiz as apresentações, bebericou-se e - consultou o relógio - veja, Excelência, nem seis horas e já se dispersaram. O Assessor da Presidência da RATESP está instalado na ala norte, vizinho do Diretor das Classes Conservadoras Armadas e Desarmadas, que está ocupando a suíte cinzenta. Já a Delegação Americana achei conveniente instalar na ala sul. Por sinal, deixei-os há pouco na piscina, o crepúsculo está deslumbrante, Excelência, deslumbrante!
- O senhor disse que o Diretor das Classes Conservadoras Armadas e Desarmadas está ocupando a suíte cinzenta. Por que cinzenta? O jovem pediu licença para se sentar. Puxou a cadeira, mas conservou uma prudente distância da almofada onde o secretário pousara o pé metido no chinelo. Pigarreou.
- Bueno, escolhi as cores pensando nas pessoas - começou com certa hesitação. Animou-se: - A suíte do Delegado Americano, por exemplo, é rosa-forte. Eles gostam das cores vivas. Para a de Vossa Excelência, escolhi este azul-pastel, mais de uma vez vi Vossa Excelência de gravata azul... Já para a suíte norte me ocorreu o cinzento, Vossa Excelência não gosta da cor cinzenta?
O Secretário moveu com dificuldade o pé estendido na almofada. Levantou a mão. Ficou olhando a mão.- É a cor deles. Rattus Alexandrius. - Dos conservadores?- Não, dos ratos. Mas, enfim, não tem importância, prossiga, por favor. O senhor dizia que os americanos estão na piscina, por que os? Veio mais de um?
- Pois com o Delegado de Massachusetts veio também a secretária, uma jovem. E veio ainda um ruivo de terno xadrez, tipo um pouco de boxer, meio calado, está sempre ao lado dos dois. Suponho que é um guarda-costas, mas é simples suposição, Excelência, o cavalheiro em questão é uma incógnita. Só falam inglês. Aproveitei para conversar com eles, completei há pouco meu curso de inglês para executivos. Se os debates forem em inglês, conforme já foi aventado, darei minha colaboração. Já o castelhano eu domino perfeitamente, enfim, Vossa Excelência sabe, Santiago, Buenos Aires...
- Fui contra a indicação. Desse americano - atalhou o Secretário num tom suave mas infeliz.
- Os ratos são nossos, as soluções têm que ser nossas. Por que botar todo mundo a par das nossas mazelas? Das nossas deficiências? Devíamos só mostrar o lado positivo não apenas da sociedade mas da nossa família. De nós mesmos - acrescentou apontando para o pé em cima da almofada.
- Por que não apareci ainda, por quê? Porque simplesmente não quero que me vejam indisposto, de pé inchado, mancando. Amanhã calço o sapato para a instalação, de bom grado faço esse sacrifício. O senhor, que é um candidato em potencial, desde cedo precisa ir aprendendo essas coisas, moço. Mostrar só o lado positivo, só o que pode nos enaltecer. Esconder nossos chinelos.

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Comentário do conto Seminário dos ratos

Seminário dos ratos, conto de Lygia Fagundes Telles, faz parte da coletânea de contos de mesmo nome. Neste conto a autora também rompe com a realidade e com a lógica racional, desenvolvendo uma narrativa compromissada com o fantástico..
Conto narrado em terceira pessoa, organiza-se como uma alegoria de nossas estruturas político-burocráticas. Trata-se de ratos, pequenos e temerosos roedores, numa treva dura de músculos, guinchos e centenas de olhos luzindo negríssimos, que invadem e destróem uma casa recém restaurada localizada longe da cidade. Ali aconteceria um evento denominado VII Seminário dos Roedores, uma reunião de burocratas, sob a coordenação do Secretário do Bem-Estar Público e Privado, tendo como assessor o Chefe de Relações Públicas. O país fictício encontra-se atravancado pela burocracia, invertendo-se a proporção dos roedores em relação ao número de homens: cem por um.
O conto surge numa época na qual o Brasil atravessava um complicado momento histórico, caracterizado pela repressão política. No trabalho gráfico da capa da primeira edição do livro Seminário dos ratos, estão dois ratos segurando estandartes com bandeiras à frente de uma figura estilizada – uma espécie de monstro com coroa, um rei no trono, a ser destronado pelos animais?
O próprio nome do conto "Seminário dos ratos" já causa uma inquietação. Um seminário evoca atividade intelectual, local de encontro de estudos, possuindo etimologicamente mesma raiz de semente/sementeira – local para germinar novas idéias. Também traz uma ambigüidade: seminário no qual se discutirá a problemática dos ratos, ou seminário no qual os ratos serão participantes? Essa questão ficará em aberto ao final do conto. A narrativa é introduzida através de uma epígrafe – versos finais do poema "Edifício Esplendor" de Carlos Drummond de Andrade (1955) - da qual já emana um clima de terror, em que os ratos falam, humanizados pelo poeta: Que século, meu Deus! – exclamaram os ratos e começaram a roer o edifício. A imagem evocada por este verso já traz um efeito em si, remetendo à história de homens sem alma e a construções sem sentido, que não vale a pena conservar, condensando uma perplexidade frente a situações paradoxais daquele século surpreendente. O nome "esplendor" no título do poema é uma ironia, visto que o edifício descrito pelo poeta é pura decadência.

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25 de abril de 2013

J. J .Veiga. Os do outro lado.


A casa era grande e alta, de tijolos vermelhos, talvez a mais alta do lugar. Estava atrás de uma cerca de taquara coberta de melões de são caetano. Mas sendo tão grande, tão alta e de cor tão viva, e a cerca não tendo mais que a altura de um homem médio, nunca pude compreender porque não era vista da rua. Desde que me entendo, eu passava por lá todos os dias, para cima e para baixo, lembro-me bem da cerca inclinada aqui e ali ao peso da folhagem, a rua de largura exagerada, o capim crescendo nas fendas da calçada, e no meio da rua os riscos paralelos das rodas dos carros cortados fundo na areia vermelha.
Lembro-me do barranco alto que havia do outro lado, as casinhas equilibradas lá em cima entre mangueiras e abacateiros, as frutas que caíam na rua e que ninguém apanhava, até olhava com certo receio; a roupa estendida na cerca de arame, as pancadas permanentes que vinham de lá, como se a única ocupação daquela gente fosse remendar panelas e tachos, num serviço que nunca acabava. De vez em quando um cachorro latia sem muito entusiasmo e logo se calava, como se estivesse apenas cumprindo uma obrigação, ou avisando que não o esquecessem que ele também queria entrar na paisagem. Lembro-me de tudo isso mas não me lembro da casa vermelha anteriormente aos acontecimentos que vou relatar.
Também não me lembro de ter andado do outro lado, não sei quem morava lá, aquela parte não estava no meu caminho nem na minha curiosidade; só me recordo, como coisa normal e aceita, que os entes que moravam lá não eram para ser vistos, muito menos frequentados ou recebidos. Se acontecia-nos encontrar um deles, virávamos o rosto para o outro lado, ou corríamos caso ele viesse nos falar.
Por causa deles fiquei preso várias horas em casa de uns amigos, onde tinha ido levar um prato de jabuticabas. Vejo-me transportando o prato com muito cuidado porque estava cheio de derramar, a caminhada era difícil por causa das falhas do calçamento, das ladeiras a subir e descer e eu não podia deixar cair uma jabuticaba que fosse. Não que alguém as fosse contar uma a uma e responsabilizar-me pelas que faltassem; eu até comi boa quantidade delas pelo caminho, apanhando-as com a boca por ter as mãos ocupadas com o prato. Mas eu sabia que se deixasse uma só cair no chão uma coisa irreparável aconteceria. A minha responsabilidade era imensa, era como se eu estivesse aguentando nas mãos a mola que impede o mundo de desmanchar-se.
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Comentário do conto "Os do outro lado".

O conto “Os do outro lado” é relatado a partir do ponto de vista de um narrador-protagonista, uma criança, que narra os acontecimentos insólitos vivenciados por ele e os transtornos pelos quais passam os habitantes de uma cidadezinha interiorana, submetidos a uma lei superior que não ousam transgredir. Inexistem questionamentos sobre esta lei e quase todos passam a conviver com ela naturalmente. Ou seja: aceitam-na sem indagarem acerca da pertinência da mesma.
A narrativa é iniciada com o narrador apresentando um curioso e inusitado fato: a descoberta de uma enorme casa vermelha até então absolutamente estranha para ele, não obstante estar situada em um lugar por onde transitava diariamente, como relata o trecho a seguir:
“A CASA era grande e alta, de tijolos vermelhos, talvez a mais alta do lugar. Ficava atrás de uma cerca de taquara coberta de melões-de-são-caetano. Mas sendo tão grande, tão alta e de cor tão viva, e a cerca não tendo mais que a altura de um homem médio, nunca pude compreender por que não era vista da rua. Desde que me entendo, eu passava por lá todos os dias, para cima e para baixo, lembro-me bem da cerca inclinada aqui e ali ao peso da folhagem [...]. Lembro-me de tudo isso mas não me lembro da casa vermelha anteriormente aos acontecimentos que vou relatar”.
A seguir, o narrador relembra fatos que aconteceram antes da descoberta da casa de tijolos vermelhos, reforçando mais ainda o mistério que envolve a mesma. Mistério que ele não tem pressa em elucidar, só retomando a intrigante questão da casa, muito depois de ter esgotado o repertório dos acontecimentos passados.

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25 de janeiro de 2013

Eça de queirós. O Defunto.

No ano de 1474, que foi por toda a Cristandade tão abundante em mercês divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Segóvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moço, de muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas
Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cânones, ficava ao lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, para além do adro, onde cantavam as três bicas de um chafariz antigo, era o escuro e gradeado palácio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias, que já na madureza da sua idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos cor de sol-claro e colo de garça real. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor; ainda que, sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a caça, os saraus bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e pichéis de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhança, tomara ele o piedoso costume, desde a sua chegada a Segóvia, de visitar todas as manhãs, à hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em três Ave-Marias, a bênção e a graça.
Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebréus ou falcão, ainda voltava para, à saudação de Vésperas, murmurar docemente uma Salve-Rainha.
E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.

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Comentário do conto O Defunto, de Eça de Queirós.


O defunto é, para a grande maioria dos pesquisadores queirosianos, a expressão significativa da narrativa fantástica em Eça de Queirós.
Nesse conto, o narrador possui uma intenção e uma execução própria das narrativas fantásticas, bastante desenvolvidas no século XIX, o século em que Eça viveu. O título logo assume um dado estranho.
Em “O defunto” evidencia-se que essa figura tem um papel significativo na diegese.
A época em que se passa “O Defunto” é medieval, com marcações históricas bem definidas. Essa localização espaço-temporal indica que a narrativa se insere em um tempo distante, misterioso, que provoca enigmas e imagens exóticas.
Antecede a aparição do defunto (que é o enforcado) a climatização do que tende a romper com a realidade, com o natural. O espaço no qual se desenvolve a narrativa é ricamente descrito e cria o ambiente de mistério.
Os elementos espaciais surgem: Igreja silenciosa, sombria, um palácio escuro, um chafariz antigo, a penumbra que esconde, o palácio que amedronta. Tal caracterização do ambiente não é em vão: trata-se de uma extensão das personagens do Senhor de Lara e sua Senhora, D. Leonor: vidas sombrias, retiradas.
Mas, a dimensão fantástica do espaço ganha maior intensidade, quando o narrador heterodiegético constrói o caminho percorrido por D. Ruy até Cabril: (...) a aldeia apinhada em torno ao mosteiro franciscano, a velha ponte romana com seu Calvário, e a azinhaga funda que leva à herdade do Senhor de Lara.
Essa gradação de efeitos amedrontadores culmina na chegada ao “Cerro dos Enforcados”, local onde os criminosos condenados à forca eram executados. A atmosfera não é nada convidativa: a presença de um mendigo que toca sanfona, um frade que agoniza, a lua cheia e amarelada, a velha que surge em farrapos, com as longas melenas soltas, vergada sobre um bordão, levando uma candeia e lhe informa sobre o caminho a seguir diante da bifurcação. Ao passar pelos pilares dos condenados, o terror se concretiza: uma voz “suplicante e lenta” pede ao Cavaleiro que se detenha. Era um dos enforcados cuja “face morta, era uma caveira com a pele muito colada, e mais amarela que a lua que nela batia. Os olhos não tinham brilho. Ambos os beiços se lhe arreganhavam num sorriso empedernido. De entre os dentes, muito brancos, surgia uma ponta de língua muito negra.”
Está rompida a ordem natural do Universo. O morto se reanimame fala, conduz e salvará D. Ruy de Cárdenas. O sobrenatural se dá em duas instâncias: a sonora (pois o enforcado chama e depois há um sinistro som de ossos) que contrasta com o silêncio do local (“no imenso silêncio e na imensa solidão”) e a visual. Definitivamente está instalado o insólito na narrativa. Instaurado o insólito, a narrativa avança e o suspende aumenta: qual será a participação do enforcado esta personagem, sem nome específico, desprezada física e moralmente, já que é um condenado, ganha vulto na trama, pois recebe um pedido especiaolíssimo da protetora divina de D. Rui(Nossa Senhora do Pilar).
O enforcado, vestido como o nobre Cavaleiro, de quem usa a capa e o sombreiro, é trespassado pela espada do Senhor de Lara que prepara, habilmente, uma cilada mortal para aquele que dirigia seus olhos para sua Senhora. Portanto, o enforcado salva a vida de D. Ruy de Cárdenas.
Vale ressaltar que o insólito não se encerra na fala e na ação do homem morto. Recebidos os golpes no peito, retorna ao seu lugar de morte na garupa de D. Ruy. Nesse momento, pela primeira vez, este sente arrepiar-se pela figura cadavérica: “Todo se arrepiou o bom cavaleiro ao roçar nas suas costas aquele corpo morto, dependurado de uma forca, atravessado por uma adaga. Com que desespero galopou então pela estrada infindável! (...) E D. Ruy a cada momento sentia um frio mais regelado que lhe regelava os ombros, como se levasse sobre eles num saco cheio de gelo”.
Com um final bem romântico, D. Leonor se casa com o Cavaleiro, encaminhando-se para o final feliz. E o defunto, então, o responsável pela felicidade do casal.

14 de dezembro de 2012

Petúnia, conto de Murilo Rubião


Nem sempre amou Petúnia. Mas não sabia de quem a tivesse amado tanto, enquanto Petúnia.
Eles gostavam dos jardins, dos pássaros, dos cavalos-marinhos, de suas filhas –Três louras Petúnias, enterradas na última primavera: Petúnia Maria, Petúnia Jandira, Petínia Angélica.
Quando dos pequeninos túmulos, colocados à margem da estrada, saíram os minúsculos titeus, nada mais pertencia a Éolo. Cacilda se assenhorara do seu talento, das suas recordações. Proibira-lhe visitar os jazigos das meninas, levar-lhe copos-de-leite, azaléias. Vedou-lhe o jardim, tomou-lhe o binóculo. É que apareceram os timóteos, umas flores alegres, eméritos dançarinos. Divertiam-se as miúdas Petúnias, brincando de roda, ensinando-lhes a dança, despindo-se das pétalas. A sua nudez aborrecia Cacilda. Sem protesto, Éolo aguardava as begônias, naquele ano ausentes.
Longa se tornou a espera e se punha triste por andar sozinho pelo quarto úmido. Impedido de franquear as janelas, que a esposa mandara trancar com pregos, ele imaginava com amargura os lindos bailados dos timóteos, a alegria das louras Petúnias. Por que Petúnia-mãe as julgava mortas, se nada apodrecera?
A primeira Petúnia, Petúnia Maria, filha de Petúnia Joana, levou-o a acreditar que os dias seriam felizes.
-chamo-me Cacilda. Nenhuma delas se chama Petúnia – gritava a mulher. (Cacos de vidro, perdeu-se o amor de encontro à vidraça.)
Por que begônias? Felônia, felonia. Fenelão comeu a pedra – Petúnia Jandira gostava de histórias:
-Papai, quando virão os proteus?
-Não comem gente, são dançarinos, filhinha.
-E os homens?
-Fenelão comeu a pedra. Era lírico o Fenelão.
Éolo não tinha planos de casamento, porém sua mãe pensava de outro modo:
-Sou rica e só tenho você. Não admito que minha fortuna vá para as mãos do Estado. – E, irritada diante dessa possibilidade, alteava a voz:
-Quero que ela fique com os meus netos!
Vendo que não conseguia mudar as convicções do filho, nem seduzido com a visão antecipada de possíveis descendentes, descaía para a pieguice.
-Além do mais, amor, quem cuidará do meu Éolinho?
O diminutivo era o bastante para enfurecê-lo. Saía batendo as portas até seu quarto.
Periodicamente dona Mineides promovia festinhas, enchendo a casa de moças, esperançosa de que o rapaz casasse com uma delas. Às que reuniam, na sua opinião, melhores qualidades para o matrimônio, insinuava, aparentando uma felicidade um tanto fingida: “Alguém terá que substituir-me e cuidar dele com o mesmo carinho”.
As jovens concordaram, felizes por se tornarem cúmplices da velha.
O filho bocejava. Ou se irritava ouvindo os gritinhos histéricos, as perguntas idiotas, a admiração das mocinhas pelo casarão, onde o mau gosto predominava.
Enfastiado, esperava esvaziar-se o recinto, cessasse o alvoroço das inquietas raparigas. Terminada a festa, dona Mineides e os criados já recolhidos aos aposentos, os pássaros invadiam as salas, voavam em torno dos lustres, pousavam nos braços das cadeiras. Não cantavam. Ruflavam de leve as asas, para não despertar os que dormiam, pois jamais permitiam que outras pessoas, além dele, os vissem em seus vôos noturnos.
Estava Éolo, numa tarde, a soltar bolhas de sabão, quando ouviu de longe a mãe berrar:
-Éolo, seu surdo, venha cá!
Relutou em atender ao chamado, tal o seu desagrado pelo tom brusco com que solicitavam a sua presença na sala.
A velha aguardava-o impaciente. Logo que pressentiu seus passos no corredor, avançou em direção do filho, arrastando pelas mãos uma moça que pouco à vontade a acompanhava:
-É ela.
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Comentário do conto Petúnia

―Petúnia é um conto cuja epígrafe traz idéia de ameaça, que apresenta um tom mais intimidativo do que a noção de advertência. Audemaro Taranto estabelece oposições entre casas x espinhos e urtigas, e fortaleza x azevinho, considerando que o azevinho, por ser planta medicinal, deveria estar próximo à casa, enquanto os espinhos e urtigas deveriam cercar a fortaleza. A epígrafe sugere que o nascimento dessas plantas ocorre de forma deslocada, encerrando, com isso ―a punição que se avizinha.
Nesta história, Éolo ( da mitologia, o deus do vento) é um homem fraco, submisso à mãe, D. Mineides ( na mitologia grega, as filhas de Minias foram levadas à loucura e cortaram um homem em pedaços, depois foram transformadas em morcegos.). Éolo se casa com Cacilda cujo nome se muda em Petúnia e Joana no decorrer do conto. As filhas também trazem o nome da planta: Petúnia Maria, Petúnia Jandira e Petúnia Angélica. As mulheres são as dominadoras. A mãe, depois que morre, encarna-se num retrato, que é colocado no quarto do casal. A maquiagem da velha derrete-se e é constantemente retocada pelo filho dominado.
 A metáfora de flor, secularmente associada ao feminino, ganha vida e crueldade nessa fantástica história: Petúnia mãe estrangula as petúnias filhas, pondo culpa na sogra. As filhas são enterradas/ plantadas em canteiros. Toda noite, o pai desenterra as filhas, que dançam no jardim, entre titeus e proteus, plantas que trazem nomes mitológicos.
Cacilda/ Petúnia coleciona cavalos-marinhos, que impedem que Éolo saia de casa. Cacilda tem um comportamento suspeito, deixando a casa pela manhã e só regressando à noite. De seu ventre, à noite, cresce uma flor negra e viscosa. Éolo arranca essa planta horrenda, mas ela retorna sempre. Por fim, o marido mata a esposa, enterrando-a no jardim. Mas as flores negras se multiplicam e invadem sua casa, onde ele fica bloqueado, com medo de ser denunciado.
Como o mitológico Sísiso, condenado à circularidade de seus trabalhos, o protagonista é condenado a essa horrível eternidade de retocar o retrato da mãe, desenterrar as filhas e arrancar as flores.
O desfecho do conto remete o texto para a perspectiva de uma obra aberta, sujeita a uma interpretação
múltipla. Esse desfecho tende para o infinito, para uma eterna repetição, onde o protagonista Éolo, como o mitológico Sísifo empurrando eternamente sua pedra, terá que desenterrar as filhas, retocar o quadro da mãe morta e arrancar as flores negras vindas do ventre da esposa, que lhe condenaram àquele suplício.
Hipérbole e repetição são elementos recorrentes na criação do fantástico nesse texto moderno de Murilo Rubião.
Em alguns momentos do conto, o sonho adquire a forma de um pesadelo, como no caso em que escorre a maquilagem do retrato da mãe do protagonista, tornando possíveis as mais aterrorizantes cenas surrealistas, como as rosas negras que brotam do ventre da figura feminina e invadem a casa, e os estranhos rituais noturnos de meninas assassinadas que, sendo gente e flor a um só tempo, são desenterradas para dançar.
A personagem masculina é, assim, condenada a cuidar da memória das entidades mortas: as filhas, a mulher, a sogra. O homem não se livra de seu passado, é atormentado por ele.


18 de outubro de 2012

O Mistério da Árvore - Raul Brandão



Esgalhada e seca, os seus frutos eram cadáveres ou corvos. Ninguém se lembrava que tivesse dado folhas nem flor, a árvore enorme que havia séculos servia de forca: ninguém se deitava à sua sombra, e até o sol fugia da árvore estarrecida e hirta que havia séculos servia de forca.
Em frente ficava o Palácio real, construído num bloco de pedra escura, e só o Rei, de alma igual à sua alma, nua e trágica, se pusera a amá-la, a árvore triste que havia séculos servia de forca. Que doença estranha, lenta mas tenaz, matava o Rei?... Só amava os crepúsculos, as agonias da luz, o passado, e a multidão silenciosa vinha vê-lo, ao fim da tarde, de cabeça encostada aos vidros das janelas, fixo o olhar nas águas verdes e limosas e no espectro da árvore levantada diante do Palácio. Tudo que era vivo fugira de ao pé dele, porque o Rei mandava punir a mocidade e o amor, e dez léguas à roda o país tinha sido assolado pelos seus guerreiros brutais. Mandara queimar tudo, devastar tudo no seu reino.
Nem uma folha nem uma ave – nem um sinal de vida. De pé unicamente a árvore, desde séculos estarrecida e hirta, a árvore maldita que no seu reino servia de forca. No silêncio tumular do Palácio os passos do Rei ecoavam pelos corredores desertos, lentos ou precipitados, conforme o pensamento tenaz que o devorava, gastando pouco a pouco as lages duras do chão. Não podia amar. Nem a voluptuosidade, nem o ideal, nem o amor, nem a carne láctea das mulheres: tudo lhe era vedado. Horas atrás de horas se ouviam no Palácio os passos do Rei doente, toda a noite, toda a noite a rondar...
Sucedeu que veio a Primavera e todas as árvores, para lá do território assolado, estremeceram e se cobriram de flor. Borboletas nascidas do seu hálito noivavam no azul, e dois mendigos amorosos, de países lendários, entraram e perderam-se, naquela terra praguenta, ela envolta na poalha dos cabelos louros, ele feliz e esbelto, preso ao seu olhar. Eram pobres. E assim, apenas vestidos, vieram enlaçados com a Primavera, cobrindo a terra erma, que calcavam, de vida e de amor. Eram pobres e felizes. Flores esvoaçavam pela sua nudez, e as macieiras dos quintais deitavam galhos fora dos muros, de propósito para os ver passar.
Azul, sonho, entontecimento, toda a atmosfera estremecia. Só o Rei no Palácio deserto vivia braço a braço com a dor. A vida, a luz, as árvores enojavam-no. Queria todo o país negro, deserto e escalvado; e o amor que trespassava a terra e os bichos, a própria morte que tudo transforma, lhe pareciam abominação e afronta. Odiava a vida. Mas deitava-se e sentia palpitar as fragas: os montes eram seios duros, as árvores cabelos ao vento. Para não ver, encerrava-se no Palácio construído dum bloco de pedra, e sozinho ficava então de olhos postos na árvore. Contemplava-a. Como o Rei, ela era seca e hirta – fora-o sempre – e os seus frutos cadáveres ou corvos. À passagem de Abril e dos mendigos, tudo à volta se transformava: só ela quedava inerte diante da vida e do amor, a árvore trágica que havia séculos servia de forca.
Um dia o Rei soube que dois seres felizes haviam transposto as fronteiras e mandou-os logo prender. Nas últimas noites sentira-os nos espinheiros túmidos, nos sapos dos caminhos que pareciam extáticos, nas coisas que estremeciam, na noite magnética cheia de murmúrios, no vento que atirava para o castelo ramos de árvores luminosos. Punha -se de ouvido à escuta, e a terra, a noite e o mar sufocados iam talvez falar, iam enfim falar!... Quando os soldados os trouxeram ao Palácio, com eles entro um bafo novo: cheiravam a sol e a lama dos caminhos e pegava-se-lhes húmus aos pés descalços. A vida rompeu por aquele túmulo dentro pois que iam morrer, dir-se-ia que a morte, em lugar da foice simbólica, pela primeira vez trazia nas mãos um ramo de árvore
Dois mendigos e amavam-se! Nem sequer eram extraordinariamente belos, mas deles irradiava uma força imensa – daquela moça sardenta, com resquícios de palha pegados aos cabelos, daquele homem cuja carne aparecia entre os farrapos. Não davam pelo Rei, não davam pela Morte. Amavam-se. Atreviam-se num país que ele mandara assolar para que nunca mais diante de seus olhos pudesse aparecer a imagem da vida e do amor! Olhou-os o Rei durante alguns minutos em silêncio, e depois fez um gesto aos carrascos, que logo se apoderaram deles e os levaram. Sorriam-se os mendigos cheios de terra e ervas, e, enlevados, olharam um para o outro, ignorando o que se passava em volta – olhos nos olhos, mãos nas mãos... Noite negra, o Rei subiu sozinho ao terraço. Restos de nuvens, restos de mantos esfarrapados arrastavam-se pelo céu.